
Trabalhando em dois fuso horários me sobra pouco tempo para atualizar o blog, mas há algumas semanas publiquei um artigo na Antebellum sobre malware e a atitude das empresas diante da evolução dessa encrenca. Segue o texto abaixo, e como de costume, uma versão em PDF está disponível na página de documentos.
Já tem algumas semanas que uma notícia curiosa foi publicada em vários meios de comunicação: o juiz Mário Jambo, da 2ª Vara Criminal da Justiça Federal do Rio Grande do Norte, concedeu habeas corpus a três crackers presos pela Polícia Federal. A liberdade provisória determina que eles leiam obras clássicas, façam um resumo para cada livro, se matriculem e freqüentem assiduamente uma escola, além de estarem proibidos de usar computadores.
Não consegui encontrar dados suficientes para entender porque o juiz em questão tomou uma decisão tão curiosa, que me parece bastante adequada para adolescentes que foram pegos fazendo alguma bobagem. Tendo em vista que eles foram presos durante a Operação Colossus, cujo objetivo era desarticular uma quadrilha especializada em furto de senhas de correntistas de bancos e falsificação de cartões de crédito, a decisão me parece mais irresponsável do que curiosa.
Prefiro pensar que o juiz em questão não estava bem informado sobre o impacto que o malware tem causado para a sociedade e como a motivação criminosa há muito já substituiu a pura curiosidade intelectual de quem pratica estes atos. Afirmo isto com base em várias pesquisas que circularam recentemente, tais como o Boletim de Segurança 2007 da Kaspersky Lab (www.kaspersky.com) e os documentos publicados pelo Panda Labs (www.pandalabs.com). Ambos são unânimes em demonstrar que essa tendência ganhou força em 2007 e não parece mudar nos próximos anos. O motivador dos eventos que envolvem quebra de segurança é o mesmo: cibercrime.
O volume das perdas
Os números são bastante relevantes. Além dos resultados da 12th Computer Crime and Security Survey publicada este ano pelo CSI (www.gocsi.com) mostrarem que a perda média anual das empresas participantes com cibercrime passou de US$ 168 mil para mais de US$ 350 mil, somente nos EUA as projeções para 2007 passam de US$ 105 bilhões. O grande problema de se calcular com mais precisão o quanto é perdido com o cybercrime está na capilarização dos ataques e na grande diferença utilizada pelas autoridades para calcular a estatística referente. Mas que é um valor elevado e que cresce anualmente, isto é um fato.
A pesquisa do CSI fala em um total de quase US$ 67 milhões, e eu não consegui achar em nenhum lugar o volume de perdas colaterais. Mas imagine o custo envolvido somente em duas situações comuns à maioria das pessoas que usam a Internet como canal de acesso a serviços e produtos:
- Se você vai comprar um produto em uma loja on-line, que passa por um risk assessment regular, têm ferramentas de segurança implementadas e uma equipe de resposta a incidentes, quem será que vai pagar este custo?
- Sua conta bancária está protegida por criptografia em vários sistemas, o acesso ao Internet Banking requer um cartão de códigos variáveis, no back office existem processos de Intrusion Detection Systems, quem será que vai pagar este custo?
Como você já deve ter imaginado, o custo com a proteção é repassada para o cliente, assim como a alta do trigo aumentou o preço do pão que você come no café da manhã. Este custo, caro leitor, é impossível de ser calculado e certamente ultrapassa em muito os valores estimados pelas pesquisas disponíveis. No final das contas, a verdade é que o aumento do malware e o direcionamento para o cibercrime incrementa a demanda por proteção, onera as empresas e este custo passa a fazer parte da composição de preços de vários segmentos. E como podemos reduzir o impacto deste problema em nossos bolsos?
A solução é uma responsabilidade direcionada para a Área de Segurança da Informação?
De forma alguma. O aumento dos casos, abrangência dos ataques e interesse criminoso é uma evolução natural do mercado, uma vez que o e-commerce e outros setores que fazem uso intenso de tecnologia crescem a taxas incríveis, e dois componentes se mantêm: empresas que não consideram segurança como parte dos seus negócios e profissionais que desconhecem as boas práticas em suas atividades.
Falando das empresas, minha experiência de mais de 10 anos no mundo corporativo mostrou uma coisa: as empresas estão interessadas em resultados imediatos e em como isto pode reverter em benefício delas. Até aí, nada demais, pura lei da sobrevivência. O problema é que até hoje a segurança é vista como um gargalo nos projetos de TI, e dificilmente como parte integrante do processo. Sempre que existe um custo ou um esforço da equipe em implementar os processos de segurança em um projeto, a cara feia do gerente de projeto e a reação imediata de tentar reduzir ambos, mostra que o desconhecimento ainda é uma constante.
Se onde você trabalha não é assim, parabéns, a sua empresa é uma das poucas que já estão com um nível de conscientização elevado, mas levando em consideração a pesquisa do CSO no mercado norte-americano (com o qual o nosso regula bastante), onde menos de 1% das empresas participantes vão investir mais do que 22% do orçamento em segurança em conscientização, esta encrenca está longe de terminar.
Da parte dos profissionais, além do resultado citado no parágrafo anterior também incluí-los, existe uma resistência incrível em adotar processos simples de segurança por parte das pessoas. E pelo que está apresentado no relatório Gartner’s Top Predictions for IT Organizations and Users, 2008 and Beyond: Going Green and Self-Healing, isto vai piorar se não tomarmos uma attitude agora.
De acordo com este documento, as empresas estão tomando suas decisões relacionadas a estratégia de TI cada vez mais com base no que os consumidores – ou clientes – querem.
E como boa parte dos CEOs e CIOs tomam decisões com base em documentos deste tipo, a recomendação do Gartner de “Estabelecer iniciativas de comunicação e colaboração entre os usuários e os tomadores de decisão em TI quando selecionarem novas tecnologias e serviços” deve ser entendida como um motivador para mudar a postura, e mudar agora.
Quanto custa combater o malware?
Além dos passos básicos de instalar ferramentas de segurança adequadas a cada ambiente – muitas das quais Open Source e de excelente qualidade – existem documentos públicos que devem ser usados por qualquer empresa como parte de seus processos de negócio, e não de TI ou Segurança da Informação.
O Open Web Application Security Project (www.owasp.org) é um excelente começo. São projetos, ferramentas e guias de implementação que estão disponíveis a distância de um clique de mouse. O OWASP Top 10 mostra as vulnerabilidades mais comuns em web site, e para cada, mostra como o processo de proteção deve ser conduzido. Ferramentas aplicáveis a qualquer ambiente que tenha frameworks baseados em J2EE, .NET, LAMP, Cold Fusion, Struts, Web Services, IIS, WebSphere, WebLogic ou Tomcat têm guias de proteção já publicados e podem ser usadas por pessoas que tenham conhecimento técnico das tecnologias, e não necessariamente de segurança.
E se o problema for na parte processual, o NIST (http://csrc.nist.gov) tem disponíveis mais de 100 documentos que cobrem desde a configuração de servidores até o estabelecimento de um programa de métricas. Basta ler e usar as instruções, que uma vez colocadas podem ser gerenciadas através de metodologias também disponíveis … de graça.
Se o problema é a língua, você deve aprender inglês rapidamente, porque a maioria absoluta dos recursos está neste idioma. Mas no Brasil temos boas iniciativas também, que tal começar lendo o material publicado pelo CERT.BR (www.cert.br)? Lá você irá encontrar listas de ferramentas, práticas profissionais e um documento de conscientização excelente, a Cartilha de Segurança para Internet publicada em http://cartilha.cert.br.
É de graça e ninguém usa?
Se fosse simples desta forma o problema estava resolvido, mas para concluir temos que voltar ao tópico “falta de conscientização”. Em um momento onde o buzzword da hora é GRC (Gestão, Riscos e Compliance), vejo empresas buscando padronizar seus processos, documentar o que é feito e ficarem cada vez mais alinhadas às boas práticas e padrões de excelência em gestão de risco. É sensacional ver como nosso mercado se transformou nos últimos anos, e finalmente chegamos ao campo da gestão nas organizações.
Mas de um modo geral, será que as empresas que estão investindo em tudo isso já fizeram o dever de casa e protegeram sua infra-estrutura de TI? Pelos resultados das pesquisas e as notícias da mídia, não. E ainda assim, recursos são alocados para todo e qualquer ferramenta de gestão de riscos, e dificilmente para aquele baseline que deveria proteger a organização.
A minha sugestão é que você, caro leitor, comece a mudar este cenário. Organizações como a ISSA, OWASP, ISC2 e outras têm uma representatividade pífia no Brasil porque a própria comunidade não se envolve. Sei que todos nós temos nossos trabalhos, famílias, lazer, mas participar de algo que será benéfico para nosso mercado também é trabalho, com remuneração a longo prazo e benefício para todos que participam desta cadeia de valores.
É necessário participar, escrever artigos, publicar trabalhos, pesquisar, se envolver e usar tudo isto em prol da comunidade. Os resultados serão excelentes para todos, afinal o uso de recursos de TI faz parte da vida comum à boa parte da nossa sociedade, inclusive o juiz Mário Jambo que poderá entender o que um cracker faz para ganhar dinheiro.